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O último dia com ela ♥ 30 DWC 2 - um dia que marcou

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014


Hoje acordei antes do sol, com minha mãe tentando me dar uma notícia. Minha tia Cida faleceu. Ela tinha ido pro Hospital das Clínicas um dia depois do Natal. Eu não estava preocupada porque não era a primeira nem segunda nem terceira vez que isso acontecia. Quando eu nasci ela já tinha um rim transplantado e vivia com outros problemas que eu nunca soube o nome. Criança né, pra que explicar? Ela passava uns tempos mal, as vezes semanas, as vezes meses, mas sempre melhorava e logo estava de volta pra gente.
 
Sempre. Uma das coisas que aprendemos conforme vamos crescendo é que não se pode confiar nem em uma simples palavra. 'Sempre" na verdade é só enquanto der. Só enquanto a medicina for capaz de tornar a dor suportável.
 
A Tia Cida era alegre. Queria saber de tudo. Eu adorava contar qualquer novidade que acontecia na minha vida. Via novela. Fazia inglês na Wizard. Tinha letra bonita. Mandava cartões todo final de ano. Tinha caderno de receitas e de músicas preferidas. Morava em Santos a três quadras da praia. Passar férias lá era o máximo. Eu e meu irmão tínhamos nossas próprias canecas, que só eram usadas por nós, quando estávamos lá. O apartamento e todas as coisas tinham um cheiro especial, o cheiro dela. Voltava pra São Paulo e o cheiro vinha comigo, junto com o bronzeado e as histórias pra contar na escola.
 
No final de 2011, veio morar em SP com minha outra tia, a Maria Helena, ou só Tia Mena. Não dava mais pra ficar sozinha. O apartamento de Santos foi vendido. Tudo foi levado pra nossa casa de Camanducaia. Passei dias e dias com minha prima vendo fotos, cartas antigas, cadernos, muitos livros e cds. Ela disse que eu podia pegar o que quisesse, inclusive tudo que havia no porta joia.
 
O que mais dói é o fato de ela ter embora lentamente, mas eu só ter percebido quando não dava mais tempo.
 
Enquanto eu me maquiava pro almoço de natal desse ano, meu irmão falou brincando: "pra que se arrumar tanto pra ir pra ver os tios? o natal da nossa geração vai ser de chinelo, já tô avisando". Eu fiquei com isso na cabeça. "o natal da nossa geração". Ele se referiu ao futuro, quando eu, ele e meu primo tivermos filhos e formos "os tios". Nunca tinha pensado nisso. Esse foi o terceiro natal com as mesmas pessoas. O terceiro natal depois que os gêmeos Mari e Dudu nasceram e o terceiro natal que meu primo Guilherme volta a passar com a gente. Me acostumei. Não tinha me dado conta que esse conjunto de pessoas que me sempre me fizeram tão bem um dia iria deixar de estar completo.
 
Queria que ela vivesse mais pra fazer parte não só dos próximos natais, mas das próximas fases da minha vida. Ela sempre esteve presente, e agora eu só vou falar dela no passado. Mas eu garanto que só vou falar dela com todo o valor que merece por ter me dado mais do que o melhor, mais do que podia, em todos os dias de sua vida.